Por: Eduardo Lapa – Diretor de Mercado e Governança – SEEL Engenharia
Ao longo da minha carreira, seja na consultoria estratégica ou agora na linha de frente da engenharia, tenho observado um padrão que se repete em diversos setores: a busca incessante por eficiência que, paradoxalmente, muitas vezes leva a resultados abaixo do ideal. Focamos em otimizar as partes e, no processo, comprometemos o todo. Essa dinâmica é especialmente crítica no nosso setor de infraestrutura, onde a integração de disciplinas não é um detalhe, mas a essência do sucesso de um projeto.
Recentemente, tive a satisfação de mediar uma conversa profunda sobre este tema em nosso podcast, focando no universo da geração hidrelétrica. O debate contou com as visões valiosas de Rafael Machado Kieling , CEO da Hidroenergia , Júlio Duarte, Diretor Técnico e Comercial da mesma empresa, e do nosso líder de Alianças Estratégicas na SEEL Engenharia , Filippo Rodrigues . O que ficou claro é que estamos diante de um dilema: podemos continuar montando “consórcios de ocasião” para cada projeto ou podemos evoluir para um modelo de alianças estratégicas construídas a montante, ou seja, antes mesmo da concepção final dos projetos.
O Paradoxo da Eficiência na Engenharia: Ganhos Pontuais, Perdas Globais
A indústria da construção civil no Brasil enfrenta um cenário complexo. Somos um setor com margens de lucro cada vez mais aviltadas, uma competição pulverizada e um produto final que, muitas vezes, é percebido como uma “commodity”. Nesse contexto, a pressão por custos leva a um modelo de contratação fragmentado.
É o que chamo de “paradoxo da eficiência”. Na tentativa de otimizar cada etapa e obter o menor preço para cada componente, o tomador do serviço acaba criando um “jogo de Lego”, uma expressão precisa usada por Filippo em nossa conversa. Contrata-se a engenharia civil, a eletromecânica, a automação e a montagem de forma separada, assumindo para si a hercúlea e arriscada tarefa de ser o grande integrador. O resultado? Interfaces que se tornam abismos de risco, cronogramas desalinhados, e uma diluição completa da responsabilidade. Quando um problema surge, inicia-se um jogo de empurra-empurra que não beneficia ninguém, muito menos o projeto. No final, o que parecia ser uma economia em cada “peça” do Lego se transforma em um custo global muito maior, seja por atrasos, seja por uma performance inferior do ativo.
A Aliança a Montante na Prática: Mais que um Contrato, uma Mentalidade
A alternativa a esse modelo é a aliança estratégica firmada “a montante”, ou seja, antes mesmo que o projeto esteja totalmente definido. Como bem pontuaram Rafael e Júlio durante o debate, o cliente final não quer comprar uma turbina ou toneladas de aço e concreto; ele quer um ativo de geração de energia, uma PCH ou uma CGH, que seja confiável, seguro e rentável.
O poder da aliança reside em sentar à mesma mesa, desde o início, as empresas com expertises complementares. A construtora, com seu domínio de geotecnia e obras civis, e o fornecedor de tecnologia, com seu profundo conhecimento em equipamentos eletromecânicos.
Um exemplo prático e brilhante, compartilhado pela equipe da Hidroenergia no podcast, ilustra essa potência. Em um projeto, a colaboração inicial entre as engenharias permitiu uma reavaliação do tipo de turbina a ser usada. A nova solução, embora envolvesse um equipamento de custo unitário superior, possibilitou um redesenho completo da casa de força, tornando-a muito mais compacta. A economia gerada nas obras civis (escavação, concreto, etc.) foi tão expressiva que não apenas compensou o maior custo do equipamento, como reduziu drasticamente o CAPEX total do projeto.
Esse tipo de otimização integrada é simplesmente impossível no modelo fragmentado. É a engenharia de valor em sua essência, que só floresce em um ambiente de colaboração genuína.
O Papel da Confiança e da Governança na Construção da Aliança
Naturalmente, esse modelo não se constrói da noite para o dia. Como Filippo destacou, o primeiro passo, e talvez o mais crítico, é a seleção de parceiros com real fit cultural e alinhamento de visão estratégica. Não se trata apenas de competência técnica, mas de compartilhar valores e objetivos.
A partir daí, é preciso estruturar uma governança para essa aliança. Isso envolve alinhar processos comerciais, criar fóruns de discussão técnica e, acima de tudo, estabelecer uma base de confiança mútua. É preciso que o conhecimento flua livremente entre as partes desde a fase de prospecção e estudo de viabilidade. Na SEEL, por exemplo, temos acionado parceiros do nosso ecossistema já na origem das oportunidades, para que suas visões e expertises enriqueçam nossa proposta de valor e nos ajudem a construir a melhor solução para o cliente.
Essa abordagem exige que as empresas saiam de uma postura defensiva, de proteção de suas “caixas-pretas”, para uma postura de transparência e co-criação. O resultado é a transformação da relação cliente-fornecedor. Deixa de ser uma transação pontual e se torna uma parceria de longo prazo, onde os incentivos de todos estão alinhados com o sucesso do ativo.
É uma jornada de maturidade. E, como em toda transformação, ela exige liderança, intencionalidade e um compromisso firme com uma nova forma de trabalhar. Acreditamos que este não é apenas um caminho melhor, mas o único caminho para empresas de engenharia que aspiram a ser verdadeiras parceiras no desenvolvimento da infraestrutura do Brasil, entregando não apenas obras, mas valor sustentável.
A conversa que tivemos foi muito além e gerou inúmeros outros insights sobre regulação, tecnologia e o futuro do setor.
Para quem quiser se aprofundar, fica aqui o meu convite para ouvir o episódio completo do nosso podcast sobre o tema.
Spotify: https://open.spotify.com/episode/3nb01Hyg5VkHF2FUpMMlpj